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Engolir com segurança

Engolir difícil com Parkinson ou demência: o que a família pode fazer

Por Filipe Silvestre, fonoaudiólogo especialista em Voz · · 4 min de leitura

Muitas famílias percebem o problema na mesa. A comida demora, a pessoa segura o alimento na boca ou engasga com a saliva que se acumula. Parkinson e demência podem causar dificuldade para engolir, e às vezes as duas condições aparecem juntas.

O cuidado começa por entender o que muda em cada caso. Assim, a família sabe o que observar e com quem conversar sobre o remédio e o horário da refeição.

Algumas mudanças fazem parte do processo de cada doença, mas nem por isso precisam ser aceitas sem avaliação. Se a dificuldade cresce, se a pessoa perde peso ou se a refeição virou motivo de medo para todos, é hora de procurar ajuda.

Parkinson e demência não são a mesma coisa

No Parkinson

Engolir costuma ficar mais lento. A saliva pode acumular na boca, a voz fica mais baixa e a pessoa precisa de mais tempo entre uma colherada e outra. Muitas vezes, a dificuldade aparece sem que a pessoa perceba, porque o movimento vai ficando devagar. Quem convive com a doença costuma notar que a fala e a deglutição variam ao longo do dia. Anotar esses horários ajuda o neurologista e o fono a entender o padrão.

Na demência

O problema costuma estar ligado à atenção e à memória. A pessoa pode esquecer de mastigar, segurar a comida na boca sem engolir ou se distrair no meio da refeição. Nesses casos, a família nota que a comida fica parada, e não que a pessoa engasga na hora. Pequenas mudanças de ambiente costumam ajudar a atenção durante a refeição: sentar de frente para a pessoa, desligar a televisão e usar pratos de cor que contraste com a comida.

Quando as duas aparecem juntas

Parkinson e demência podem acontecer na mesma pessoa. Por isso vale a avaliação feita por profissionais, e não só o palpite de casa. O diagnóstico e o acompanhamento dessas condições ficam com o neurologista ou com o geriatra. Nesse caso, o acompanhamento costuma envolver mais de um profissional, e a família precisa de uma rotina clara para as refeições.

Como deixar a refeição mais tranquila

Estas mudanças costumam ajudar no dia a dia:

  1. Escolha um ambiente calmo, com pouco barulho e sem correria.
  2. Dê tempo. Espere a pessoa engolir por completo antes de oferecer a próxima colherada.
  3. Sente a pessoa bem reta, em ângulo de 90 graus, e mantenha por cerca de 30 minutos depois de comer.
  4. Ofereça porções pequenas e observe a boca depois de cada uma.
  5. Se a pessoa se distrai, chame pelo nome, mostre a comida e fale com calma.
  6. Converse com o neurologista sobre o horário do remédio do Parkinson em relação às refeições. Quem decide isso é o médico.

Não existe uma receita pronta. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra, por isso a observação diária da família é tão valiosa quanto a orientação do profissional.

Quando procurar ajuda

Procure avaliação com o médico e com o fono se aparecer:

  • Tosse ou engasgo durante ou depois da comida.
  • Voz molhada ao engolir.
  • Comida guardada na boca por muito tempo.
  • Perda de peso ou recusa de alimentos.
  • Febre que volta, ou pneumonia sem causa clara. Esse caso tem texto próprio em pneumonia aspirativa.

Para os sinais que aparecem na mesa, veja também engasgo no idoso.

Se a família perceber que a pessoa passou a recusar comida, a conversa com a equipe deve acontecer logo. A recusa pode vir do cansaço, da dor, do medo de engasgar ou de outras causas, e cada uma pede um caminho diferente.

O papel do fono e do cuidador

Eu avalio como a pessoa come e bebe, observo postura e ritmo, e ajusto consistência e utensílios. Como pós-graduado em disfagia, sei que quem passa mais tempo com a pessoa é o cuidador. Por isso, a orientação inclui o que observar, o que evitar e como manter a rotina das refeições sem pressa. No atendimento em casa, eu observo a refeição do jeito que ela acontece, sem arrumar a mesa para a visita. Assim, aparece o que realmente precisa de ajuste.

Perguntas frequentes

Parkinson sempre causa dificuldade para engolir?

Não é obrigatório, mas pode acontecer ao longo da doença. O grau varia de uma pessoa para outra, e só a avaliação mostra como está o caso de cada uma. Por isso, a família não precisa entrar em pânico, mas também não deve deixar a dificuldade virar rotina sem acompanhamento.

Posso combinar o remédio com a comida para ajudar a engolir?

Essa decisão é do médico ou do farmacêutico. Antes de combinar o horário do remédio com a refeição, converse com o neurologista.

Como saber se é demência ou só cansaço?

Não dá para saber pelo texto. Esquecer de mastigar ou segurar comida na boca pode ter várias causas, por isso a avaliação com o médico e com o fono é o caminho. Um médico pode investigar a memória e a atenção com exames e conversa, enquanto o fono observa a refeição.

O cuidador também precisa aprender algo?

Sim. A família e o cuidador seguram a maior parte da rotina das refeições. Por isso, a orientação inclui postura, ritmo e os sinais de alerta, para que quem está em casa saiba o que observar.

Engolir com mais segurança começa por uma avaliação

Vou até a sua casa, em Anápolis, vejo a refeição acontecendo e combino com a família o que muda já. Sem pressa e com explicação em linguagem simples.

Este texto é informativo e não substitui uma avaliação individual. Cada voz e cada forma de engolir têm a sua história. Em caso de engasgo com falta de ar, ligue para o SAMU (192).

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