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Engolir com segurança

Febre e pneumonia que voltam: quando a causa pode ser o engolir

Por Filipe Silvestre, fonoaudiólogo especialista em Voz · · 4 min de leitura

Algumas famílias já viveram esse ciclo: pneumonia, tratamento, melhora, e meses depois a febre volta. Quando a pneumonia se repete sem causa clara, uma das possibilidades é a aspiração, que acontece quando comida, líquido ou saliva vai para o pulmão no lugar de descer para o estômago.

Isso não quer dizer que todo caso seja esse. A aspiração pode acontecer sem que a pessoa perceba, e por isso vale conhecer os sinais e os cuidados do dia a dia. Muitos desses cuidados cabem na rotina de casa.

O que é aspiração

Quando você engole, a laringe fecha a entrada do pulmão por um instante, e a comida segue para o esôfago. Na aspiração, parte do material escapa e entra nas vias aéreas. Pense numa porta que demora a fechar: uma gota passa pelo vão, e a pessoa nem percebe.

Isso acontece com mais chance quando a pessoa está cansada, distraída ou com a cabeça caída durante a refeição. A coordenação diminui, e a proteção da via aérea fica menos eficiente.

O material pode ser comida, líquido ou a própria saliva. Por isso, a aspiração também pode acontecer em quem não come nada e tem acúmulo de secreção na boca.

Os sinais que nem sempre aparecem

O mais enganoso é a aspiração silenciosa. Nela, a pessoa não tosse, não engasga e não sente nada na hora. Os sinais aparecem depois, em forma de febre, tosse com catarro ou cansaço para respirar.

Antes disso, a família pode notar sinais pequenos: voz molhada depois de engolir, pigarro logo após a refeição, respiração mais rápida durante a comida ou um cansaço que aparece só na hora de comer. Anotar esses detalhes ajuda muito na consulta. Se a pessoa precisa de mais tempo para terminar a refeição, ou se a voz muda no meio da comida, já vale comentar com o médico. Esses detalhes ajudam a equipe a decidir o próximo passo. Para os sinais que aparecem na mesa, veja engasgo no idoso.

Quem tem mais risco

Alguns fatores aumentam a chance de a comida ou a saliva ir para o pulmão:

  • Dificuldade para engolir, a chamada disfagia.
  • Higiene bucal ruim, com resto de comida e placa acumulados.
  • Comer deitado ou recostado na cama.
  • Sonolência, ou ficar muito tempo sem atenção durante a refeição.
  • Condições como AVC, Parkinson, demência ou internação com tubo na garganta. Quem convive com essas situações encontra mais detalhes em Parkinson, demência e engolir.

Essa lista não termina aqui. Qualquer condição que mexa com o engolir pode aumentar o risco, e a avaliação é quem mostra o caso de cada pessoa. Se você convive com alguma dessas situações, vale ter a lista em mente sempre que a refeição mudar de ritmo ou de aparência.

Cuidados práticos no dia a dia

Estes cuidados são simples e cabem na rotina de casa:

  1. Coloque a pessoa sentada, em ângulo de 90 graus, na hora de comer e beber.
  2. Mantenha a pessoa sentada por cerca de 30 minutos depois da refeição.
  3. Faça a higiene da boca depois das refeições, com escova macia e cuidado com a língua e a gengiva.
  4. Respeite o ritmo: porções pequenas, uma de cada vez, sem falar de boca cheia.
  5. Use a consistência de comida e de líquido indicada pelo profissional, e não improvise espessante.

Mesmo quem não come pela boca precisa de higiene bucal. A saliva e a secreção também podem ir para o pulmão, então a boca deve ser limpa com regularidade. Escovar os dentes e a língua, trocar a escova quando estiver gasta e manter as próteses limpas, quando houver, faz parte desse cuidado.

Quando procurar ajuda

Não espere a crise. Converse com o médico e peça avaliação fonoaudiológica se houver:

  • Febre que volta, ou pneumonia que se repete sem causa clara.
  • Tosse com catarro, principalmente depois de comer ou beber.
  • Falta de ar ou cansaço para respirar.
  • Engasgo, voz molhada ou perda de peso.

Quem avalia o engolir é o fono, junto com o médico. Eu observo a pessoa comendo e bebendo, ajusto postura, consistência e utensílios, e oriento a família. O médico cuida do quadro do pulmão e pode pedir exames, como a videofluoroscopia ou a videoendoscopia da deglutição. Como pós-graduado em disfagia, sei que a orientação dada dentro de casa costuma ser a mais útil, porque é ali que a rotina acontece.

Perguntas frequentes

Pneumonia de aspiração é sempre grave?

Não dá para dizer isso sem avaliação. Cada caso depende do quadro do pulmão e da saúde geral da pessoa, e quem acompanha isso é o médico.

Dá para ter aspiração sem tossir?

Dá, e esse é o ponto de atenção. A aspiração silenciosa acontece sem tosse nem engasgo. Por isso a família precisa observar a rotina e não só o que aparece na mesa.

Posso dar líquido para a pessoa testar se engole bem?

Não. Oferecer líquido para testar pode levar à aspiração, e ela pode acontecer sem que ninguém perceba. A avaliação com profissional é que mostra com segurança o que a pessoa consegue engolir.

A fono consegue reduzir esse risco?

Pode ajudar bastante no cuidado do dia a dia, com postura, ritmo, consistência e orientação para a família. Cada pessoa precisa de um plano próprio, e o acompanhamento junto com o médico faz parte dele.

Engolir com mais segurança começa por uma avaliação

Vou até a sua casa, em Anápolis, vejo a refeição acontecendo e combino com a família o que muda já. Sem pressa e com explicação em linguagem simples.

Este texto é informativo e não substitui uma avaliação individual. Cada voz e cada forma de engolir têm a sua história. Em caso de engasgo com falta de ar, ligue para o SAMU (192).

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